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1.2.08
Quem vai pegar o trem da história?
Por Bernardo Pires Domingues

Esse negócio de voltar para a universidade para fazer mestrado acaba influenciando no jeito como a gente escreve tudo. Agora, por exemplo, não vou conseguir começar o que eu tenho a dizer antes de definir direito algumas coisas. Até um tempo atrás, havia uma discussão no Brasil (não sei em que pé está agora) sobre Assessoria de Imprensa ser atribuição de jornalistas ou relações públicas. O debate já começa distorcido porque as principais agências do mercado brasileiro não são agências de assessoria de imprensa. Têm uma abordagem e um leque de serviços muito mais amplo. Cada uma define o que faz com um nome diferente, mas, no fundo, é Relações Públicas, em um sentido igual ao que se dá à atividade por aqui no Reino Unido: empregar diferentes práticas para ajudar organizações a se comunicar com diversos públicos. Isso não quer dizer que eu tome qualquer partido na tal discussão já mencionada. Como outras pessoas já disseram, é uma questão de competência e nada impede que jornalistas ou relações públicas possam fazer boa assessoria de imprensa ou desempenhar bem outras funções de RP. Nem que algumas agências e alguns clientes, aí como cá, enxerguem RP basicamente como assessoria de imprensa. Não é necessariamente um demérito, mas uma evidência da força que a imprensa ainda tem na construção de imagem.

Todo esse preâmbulo (minha mulher diz que eu sou bom de nariz-de-cera) foi para explicar o que vai significar quando eu falar de Relações Públicas a partir de agora.

Um pouco antes de eu sair do Brasil, em agosto do ano passado, eu e o coordenador da Textual, Felipe Schmidt, fizemos uma apresentação para toda a equipe da empresa em que chamávamos atenção para o fato de a construção de relacionamento através de mídias sociais ser uma zona cinzenta que agências de publicidade e de RP vinham buscando ocupar. Chegando em terras britânicas, vi aqui e aqui que a discussão por estas bandas era a mesma ou ainda mais profunda, com o próprio mercado de Relações Públicas questionando a sua sobrevivência.

Para certos objetivos, a publicidade já tem há um bom tempo sua eficácia questionada em favor de outras formas de comunicar em que a mensagem ganha o endosso de um terceiro (a imprensa, por exemplo). Livros como The fall of advertising and the rise of PR, de 2002, transformaram as Relações Públicas na moda da época entre os marketeiros. Mas a moda agora é outra e a emergência de novas mídias transfere o questionamento para a prática de RP no sentido estrito das relações com a imprensa. A tendência do momento, o que todas as marcas querem, é gerar boca-a-boca, tornar seu público-alvo ao mesmo tempo emissor e receptor de mensagens positivas a seu respeito. O mundo digital parece ser o ambiente ideal para essa circulação de informações. E, como criatividade é o que não falta às agências de publicidade, também acostumadas a servir como um grande guarda-chuva de provimento de serviços para seus clientes (por seus próprios meios ou terceirizando tarefas) lá nesse mundo digital já estão elas, tateando e experimentando como todos os demais.

Ou seja, enquanto alguns páram na estação discutindo se Assessoria de Imprensa é para relações públicas ou jornalistas, o trem da história está passando e tem muito mais gente querendo entrar. A visão geral parece ser a de quem tem lugar para todo mundo, principalmente RP. Mais uma vez, é uma questão de competência. Porque se as mídias sociais podem ser muito boas para lançar ou divulgar produtos e marcas também o são para abalar ou destruir reputações. Para evitar o segundo cenário, o que vale é o bom e velho “colchão de proteção”, criado a partir de um relacionamento prévio, de benefício mútuo, construído dia-a-dia. É disso que se tratam as Relações Públicas. De certo mesmo, só que não é mais possível ignorar esse novo público, a coletividade que ganhou poder com as novas mídias. Daqui a pouco, você pode até estar trabalhando para ele. Como? A notícia não é nova, mas a reflexão talvez seja. Imagine você sendo o responsável pelo trabalho de RP de um clube de futebol comprado e gerido por seus próprios torcedores através da Internet. Porque esse clube já existe, será que já contratou uma agência?
postado por Textual em 12:22 PM
2 Comentários
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