Vivemos numa espécie de desorientação cotidiana.
Não é apenas excesso de informação — é o esgarçamento das certezas mais básicas: o que é real, o que é confiável, o que é verdadeiro.
Nesse ambiente de dúvida permanente, um conjunto de valores, que deveriam ser básicos, voltaram ao centro do relacionamento entre nós, brasileiros, e as marcas: transparência, utilidade e autenticidade formam o tripé que hoje consolida a confiança das pessoas nas empresas.
Essa é a principal conclusão da pesquisa que desenvolvemos na Textual e que foi aplicada pela Balt Pesquisa, ouvindo 600 brasileiros de todas as regiões do país: “Conversas que Constroem Reputação” aponta para uma mudança decisiva nas expectativas sobre como empresas se apresentam, se comportam e se comunicam.
Os resultados reforçam que as pessoas esperam das empresas muito mais do que bons produtos ou serviços. Há um desejo explícito de orientação em meio ao ruído: 86% dos entrevistados dizem valorizar marcas que combatem a desinformação. E 85% esperam empresas que ajudem a compreender melhor o mundo.
A demanda pela utilidade para além do produto ou serviço se revela com 83% dos entrevistados afirmando valorizar conteúdos de marcas que ensinam algo útil ou ampliam os seus repertórios sobre o que acontece na sociedade, no mundo.
A pesquisa revela um equilíbrio interessante entre conteúdos educativos e conteúdos leves. O humor aparece como segundo tipo de conteúdo preferido pelos brasileiros, logo atrás de ofertas. Mas esse desejo por leveza não elimina o apreço por temas sérios: saúde e bem estar, inovação, sustentabilidade e informações práticas sobre a vida cotidiana estão entre os assuntos de maior interesse.
A transparência, antes vista como diferencial, virou núcleo ético: 82% dos brasileiros querem clareza sobre preços. Já 79% esperam transparência sobre o uso de seus dados. E 77% dizem querer entender os processos das empresas, ou seja, o “como” produzem e entregam seus serviços – não apenas ouvir slogans.
Importante constatar que 73% das pessoas confiam mais em marcas que admitem erros. Ao mesmo tempo, a irritação de 55% dos entrevistados com conteúdos que parecem ensaiados demais, somada ao incômodo de 53% com marcas que tentam adotar uma linguagem “jovem” que não lhes pertence, revela uma espécie de fadiga da performance. Até mesmo parcerias com influenciadores entram nesse campo de desconfiança: metade dos entrevistados afirma não acreditar em celebridades que anunciam produtos que não usam.
A pesquisa indica que a humanização deixou de ser estratégia e virou armadilha, quando executada de maneira mecânica. As pessoas reconhecem o truque e rejeitam a tentativa de simular autenticidade. Ao mesmo tempo, valorizam porta-vozes reais. Aparecem como fontes mais confiáveis do que celebridades os consumidores (75%), os especialistas (73%) e os próprios colaboradores das empresas (62%). Essa mudança abre espaço para uma comunicação mais horizontal, mais próxima da vida comum, desde que coerente com a identidade da marca.
Um dos achados que chama atenção, especialmente num ambiente saturado de canais e plataformas, é o papel persistente da imprensa como mediadora de credibilidade. Quase metade dos entrevistados menciona descobrir marcas por meio de notícias. E 77% afirmam que conteúdos publicados na imprensa influenciam decisões de compra. A presença de marcas no noticiário parece oferecer uma camada simbólica de verificação que o consumidor considera essencial.
Ao reunir todos esses elementos, a nossa pesquisa deixa claro que a reputação é cada vez mais construída a partir da coerência, do dia a dia. Ela se fortalece quando um colaborador aparece falando pela marca, quando uma empresa reconhece um erro, oferece um conteúdo que diverte, ensina algo que melhora a vida das pessoas.
Carina Almeida, sócia-presidente da Textual Comunicação